Quais são as interfaces entre Comunicação e Cultura Organizacional?

 Antes de abordar sobre a questão proposta, torna-se  fundamental ressaltar a necessidade de mudar a forma como se vê a Comunicação nas Organizações. As organizações devem ser consideradas sistemas complexos que possuem na sua essência a característica de adaptar-se ao ambiente. São sistemas marcados pelo poder, disputas, controvérsias e contradições. Trata-se de um espaço em que existem diferentes atores, redes e conexões.

A Comunicação nas organizações, contemporaneamente, não pode ser concebida apenas da forma funcionalista, estrutural ou cartesiana. Não pode ser vista apenas como envio de mensagens de um emissor ao receptor por meio de um canal. Essa interpretação do modelo clássico de comunicação não corresponde a realidade comunicacional nas organizações, que é complexa, marcada por conexões ocultas e processos autoestruturantes. A organização é um sistema vivo e social no qual uma de suas principais características é a interação humana.Um dos elementos da complexidade organizacional se dá pelo fato das organizações serem compostas por indivíduos culturamente, etnicamente e socialmente diversos.

Quais são as interfaces entre Comunicação e Cultura Organizacional? Existem diferentes compreensões sobre a Cultura Organizacional, que são originárias de diversas correntes das Ciências Sociais e Humanas. As definições geralmente apresentam os elementos que compõe a Cultura Organizacional (crenças, mitos, heróis, ideologias, valores, normas, regras, comportamentos, atitudes, filosofias, políticas), apresentam a sua aplicabilidade ou destacam como uma propriedade organizacional.

Nesse texto, optamos pela conceituação de Joann Keyton (2011)¹ que considera a Cultura Organizacional como um fenômeno comunicativo que pode ser definido como conjunto de valores, artefatos e pressupostos  que surgem da interação dos membros da organização. Essa compreensão avança em relação às perspectivas tradicionais que dão a entender que a organização tem uma cultural organizacional única e global. Na verdade, os diferentes tipos de interações proporcionam variados tipos de cultura.

Dentro de uma mesma organização podem existir, assim, várias culturas organizacionais, já que a cultura é consequência da interação de membros. Pode-se afirmar, assim, que o conjunto de processos culturais denota a personalidade organizacional e a torna reconhecível. As organizações precisam ter culturas organizacionais que favoreçam seus desempenhos e que ajudem a diferenciá-las competitivamente, por isso a Cultura Organizacional é importante.

De acordo com Marlene Marchiori (2006), a comunicação contribui para formação das culturas por intermédio da geração de significados. Com isso, pode-se afirmar que os significados gerados nas interações comunicacionais (interpessoal, intergrupal, intersetorial) contribuem para formar as culturas de uma organização. A cultura é, na sua essência, estabelecida, mantida e reproduzida pelos membros, pois são eles que (re) criam significados e entendimentos.

É possível estabelecer várias relações entre Comunicação e Cultura Organizacional. Keyton et al. (2013) ampliam, sobremodo, as discussões sobre essa relação e propõe três diferentes interfaces: 1- Perspectiva Objeto, 2- Perspectiva Processo e 3- Perspectiva Integração.

A perspectiva do objeto entende que a Cultura Organizacional pode ser totalmente gerenciada pela Comunicação. Dessa forma, pode-se mensurar, quantificar e gerenciar a cultura no âmbito organizacional. As técnicas de comunicação, assim, seriam capazes de modificar a cultura por meio de ações estrategicamente pensadas. Os profissionais que se orientam por essa perspectiva acreditam que os programas de comunicação podem criar condições de mudanças na Cultura.

Outra perspectiva é a processual na qual a Cultura Organizacional é construída pela Comunicação, existindo uma interdependência. Destaca-se a ideia de que as ações de Comunicação produzem significados que colaboram com a cultura. Os profissionais sabem que a mudança envolve diversos fatores, sendo a Comunicação apenas um deles. As mensagens são produzidas para gerar significados, capazes de influenciar mudanças e comportamentos.

A perspectiva de integração, por sua vez, acredita que cultura e comunicação estão imbricadas e influenciam-se mutuamente. Comunicação e Cultura representam faces diferentes de um mesmo processo organizacional, sendo elementos que possuem ampla conexão. A cultura de uma organização é daquela forma, pois a comunicação assim é também. Aqueles que tomam como base essa perspectiva vinculam todas as iniciativas comunicacionais a Cultura Organizacional.

É importante destacar que nenhuma dessas abordagens é a mais correta, na verdade, todas representam olhares legítimos sobre a questão. No nosso entendimento as culturas organizacionais são dificilmente planejáveis e gerenciáveis, porque são produtos das relações entre as pessoas. As culturas podem ser mapeadas, compreendidas e até influenciadas, mas gerenciadas acredito que não.

Nesse sentido, ao nosso ver as Relações Públicas  não criam culturas, nem gerenciam, mas podem influenciar por meio de estratégias comunicacionais culturas organizacionais favoráveis. Mapeando os grupos, suas culturas, reforçando aspectos positivos. Focando na criação de mensagens com potencial simbólico que reforcem aspectos dialógicos. Uma cultura organizacional negativa só pode ser modificada se os membros assim desejarem. O estímulo a mudança pode ser feito pelas Relações Públicas. Tomemos como exemplo uma organização na qual existem práticas discriminatórias. Pode ser que o ambiente favoreça essas práticas e que seja necessário um trabalho de comunicação, com Rh e apoio da gerência da organização a fim de saná-lo.

Notas

1. Joann Keyton (Ph.D., The Ohio State University, 1987) é Professora de Comunicação na North Carolina State University. Além de publicações em periódicos acadêmicos e coleções editadas, ela publicou três livros didáticos para cursos em comunicação grupal, métodos de pesquisa e cultura organizacional, além de co-editar um livro de casos de comunicação organizacional. Keyton foi editora do Journal of Applied Communication Research, Volumes 31-33. Fonte: https://www.joannkeyton.com/

REFERÊNCIAS

KEYTON, Joann. Communication & organizational culture: a key to understanding work experiences. 2. ed. Thousand Oaks, CA: Sage, 2011.

KEYTON, Joann; BISEL, Ryan; MESSEERSMITH, Amber. Abordagem da comunicação para a cultura organizacional. In: MARCHIORI, Marlene (Org). Comunicação em interface com Cultura. São Caetano, SP: Difusão, 2013. (Coleção faces da cultura e da comunicação organizacional)

MARCHIORI, Marlene. Cultura e Comunicação Organizacional: um olhar estratégico sobre a organização. São Caetano, SP: Difusão, 2006.

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