Análise do Discurso Francesa: procedimentos e fases de análise

O principal objetivo desta postagem1 é explicar alguns procedimentos que podem ser adotados em uma Análise do Discurso Francesa (ADF). Com a ADF é possível um olhar profundo sobre as marcas textuais e o acesso às filiações ideológicas, possibilitando perceber as contradições, equívocos discursivos, evidenciar os funcionamentos e estratégias discursivas, além de explicitar os processos de significação. 

O vocábulo discurso, etimologicamente, se origina na ideia de curso, de percurso, de movimento, de dinamismo. Assim, o discurso é palavra em movimento, prática de linguagem: “O discurso, por principio, não se fecha. É um processo em curso. Ele não é um conjunto de textos, mas uma prática. É nesse sentido que consideramos o discurso no conjunto das práticas que constituem a sociedade na história” (ORLANDI, 2009, p.71).

A proposta da ADF é a construção de um dispositivo de interpretação que coloque em evidência o que é dito em relação ao que não é dito, o que é dito de outra forma ou em outro lugar (ORLANDI, 2009). Não há nela uma procura de uma verdade ou de uma avaliação valorativa, mas uma busca por evidenciar o mecanismo por trás do funcionamento dos discursos. As palavras são (res) significadas a partir do contexto em que são expressas.

A ADF busca, assim, interpretar os diferentes sentidos de um discurso e as formas de produção do mesmo, trabalhando com os sentidos e não com o conteúdo do texto, um sentido que não é traduzido, mas interpretado. É preciso esclarecer, contudo, que a ADF não é apenas uma metodologia, mas sim uma disciplina de interpretação fundada pela intersecção de epistemologias distintas, pertencentes a áreas da linguística, do materialismo histórico e da psicanálise.  

Etapas da Análise do Discurso Francesa

Segundo Orlandi (2009) a análise do discurso “visa compreender como um objeto simbólico produz sentidos. A transformação da superfície linguística em um objeto discursivo é o primeiro passo para essa compreensão. Inicia-se o trabalho de análise pela configuração do corpus, delineando-se seus limites, fazendo recortes, na medida em que se vai incidindo um primeiro trabalho de análise, retomando-se conceitos e noções, pois a análise do discurso tem um procedimento que demanda um ir-e-vir constante entre teoria, consulta ao corpus e análise” (ORLANDI, 2009, p.66).

É preciso esclarecer que existe o dispositivo teórico da interpretação que está sustentado nos princípios gerais ADF [os conceitos, princípios e construções teóricas] e o Dispositivo Analítico do Analista (definido pelo autor-pesquisador). Orlandi (2009, p. 27) esclarece essa distinção: “o dispositivo teórico é o mesmo mas os dispositivos analíticos, não.  O que define a forma do dispositivo analítico é a questão posta pelo analista, a natureza do material que analisa e a finalidade da pesquisa”. Nesse último, a autora acrescenta também as teorias mobilizadas pelo analista.

Elaborado a partir de Orlandi (2009) e Souza (2014)

A Etapa de Definições dos Dispositivos Teóricos trabalha no intermeio da interpretação e descrição, referindo-se a constituição do quadro teórico da pesquisa. De acordo com Orlandi (2009, p.62) “não há análise do discurso sem a mediação teórica permanente, em todos os passos da análise, trabalhando a intermitência entre descrição e interpretação que constituem, ambas, o processo de compreensão do analista”. O dispositivo teórico funciona como uma “lente de aumento” que busca potencializar a análise.

Na etapa da Análise Superficial do Corpus (Objeto Discursivo)o analista, no contato com o texto, procura ver nele sua discursividade e incidindo um primeiro lance de análise – de natureza linguístico enunciativa constrói um objeto discursivo” (ORLANDI, 2009, p.77). São utilizadas paráfrases, sinonímias, relação do dizer e não dizer.  Assim, “quando se faz análise, cabe ao analista de discurso explicitar, descrever e interpretar o discurso presente na materialidade do texto ” (SOUZA, 2014, p. 35).

A análise de discurso visa compreender como um objeto simbólico produz sentidos. A transformação da superfície linguística em um objeto discursivo é o primeiro passo para essa compreensão. Inicia-se o trabalho de análise pela configuração do corpus, delineando-se seus limites, fazendo recortes, na mesma medida em que se ai incidindo um primeiro trabalho de análise, retomando-se conceitos e noções, pois a análise de discurso tem um procedimento que demanda um ir-e-vir constante entre teoria, consulta ao corpus e análise (ORLANDI, 2009, p.66-67).

Começamos, assim, a entrar no processo discursivo, deslocando alguns pontos e desvelando alguns sentidos construídos. Através de alguns vestígios deixados nos fios discursivos, observamos algumas formações, algumas relações de sentido práticas discursivas, ditos e não-ditos, lugares de fala e formações discursivas que necessitarão de uma constante consulta ao dispositivo teórico a fim de que se tivesse uma melhor crítica do material. 

Com esse movimento de análise inicial, trabalhamos para desfazer os efeitos da ilusão que aquilo só poderia ser dito daquele jeito, abrangendo o Esquecimento No. 2 (do domínio da enunciação). Só é possível compreender aprofundadamente quando a análise atinge a Etapa da Análise do processo discursivo. Nessa etapa, relacionamos as formações discursivas com a ideologia e verificaram-se as redes de filiações de sentidos e suas relações desenhadas pela ideologia.

Durante essa fase, pode-se utilizar os preceitos de Souza (2014). De acordo com o autor, a leitura analítica deve ser feita utilizando-se perguntas heurísticas, que vão ajudar o analista a evidenciar os sentidos: “a análise em si envolve a circunscrição do conceito-análise e a escolha, interpretação e análise do corpus por meio de perguntas heurísticas” (SOUZA, 2014, p.21). Dessa forma, questiona-se:

  1. Quais são os conceito-análise presentes nos textos?
  2. Como os textos constroem o sentido?
  3. A que discurso pertence o conceito-análise construído da forma que o texto constrói?

Quando nos propomos a fazer uma análise, queremos investigar como um texto constrói determinado sentido sobre determinado tema. Souza (2014) destaca que o conceito-análise pode surgir de duas formas: pela definição do interesse do analista ou pelo surgimento do mesmo durante o próprio processo de análise.

É preciso estar ciente de que o corpus de análise representa uma parte do sistema simbólico sobre o tema em questão. Trata-se de uma peça de linguagem de um processo discursivo bem mais abrangente e é assim que deve ser considerado. Será possível apenas escolher algumas unidades de análise que pretendem representar as condições de produção do discurso.

Na última fase da Análise Discursiva deve ser elaborada e consolidada as Tipologias Discursivas por meio do Estudo dos Sentidos, examinando a ideologia, contexto histórico, poder nos discursos e, paralelamente, a elaboração das Tipologias Discursivas. A fase pode ser concebida pelo delineamento das formações discursivas, relação com a ideologia, análise das redes de filiação de sentidos. 

Nessa fase do processo discursivo, os textos devem ser colocados em segundo plano, já que há a necessidade de realizar uma categorização a partir indícios discursivos encontrados. Entende-se que os equívocos, as contradições, não estão no texto, mas sim nos discursos, especificamente quando relacionamos os sentidos e as questões teóricas.

Por fim, existe a fase da Pós-Análise Discursiva que é caracterizada pelo Registro/Escrita da Análise. Souza (2014) assevera que o analista pode escrever seu relato de pesquisa da mesma forma como a pesquisa é feita. Todavia, recomenda que a escrita siga um formato linear, pois “a organização da textualização acadêmica, um texto seqüencial, bem definido em suas partes, é mais bem acolhido dentro do gênero acadêmico” (SOUZA, 2014, p.40).

O autor recomenda que seja feita uma caracterização da análise, explicitação do dispositivo teórico e dispositivo analítico, relato de análise (descrição e interpretação) e considerações. Souza (2014) destaca a importância de se delinear o cenário no qual a análise discursiva foi elaborada. Por cenário, o autor entende: “compreendemos a contextualização do tema em que se insere o (s) conceito(s)-análise, as condições de produção, o ponto de inquérito do analista e a descrição do corpus analisado” (SOUZA, 2014, p.41).

Caso queira ver como utilizei a Análise de Discurso Francesa (ADF), recomendo a leitura do Capítulo 7 da minha tese “ONGs transnacionais e os sentidos de sustentabilidade amazônica: imaginário, discurso e poder“, segue o link: https://tede.ufam.edu.br/handle/tede/5689.

Espero ter ajudado. Desejo uma boa pesquisa!

Referências

ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise do Discurso: princípios e procedimentos.8.ed.São Paulo: Pontes, 2009.

SOUZA, Sérgio Augusto Freire de. Análise de discurso: procedimentos metodológicos. Manaus: Instituto Census, 2014.

1 O texto foi elaborado a partir do Capítulo ANÁLISE DO DISCURSO, IDEOLOGIA E PODER da Tese “ONGs transnacionais e os sentidos de sustentabilidade amazônica: imaginário, discurso e poder“.

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