Elementos norteadores sobre a Semiótica Peirciana

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O que é semiótica? A primeira resposta de alguns é: a ciência que estuda os signos. Ora, uma resposta como essa gera mais dúvidas do que esclarecimentos: o que é signo? o que pode ser ou não signo? signo e símbolo são a mesma coisa? signo é tudo que tem um significado?

Essas perguntas serão mais a frente respondidas, mas primeiramente é preciso estabelecer alguns elementos norteadores: 1- Definir o objeto de estudo da área; 2- Compreender aspectos do seu criador; 3- Explanar brevemente sobre as bases teóricas (Fenomenologia).

O termo semiótica deriva do grego semeiotiké e, literalmente, significa “arte dos sinais”. Trata-se de uma ciência que tem como objeto de estudo as linguagens, ou seja, todos os sistemas de produção de significação e sentido (SANTAELLA,2007). A unidade básica das linguagens são os signos, portanto, esses estão contidos naquelas, gerando um amplo e variado campo de estudos.  Conforme Santaella (2007, p.12) linguagem refere-se:

a uma gama incrivelmente intrincada de formas sociais de comunicação e de significação que inclui a linguagem verbal articulada, mas absorve também, inclusive, a linguagem dos surdos-mudos, o sistema da moda, da culinária e tantos outros

Nota-se que não se pode compreender linguagem como tão somente língua ou fala. Tal visão é reducionista, visto que a língua é apenas uma das diversas formas de linguagem. A linguagem se faz presente ainda, por exemplo, em: pinturas, esculturas, anúncios publicitários, novelas, moda, computadores, sons, músicas, poesias, vídeos, LIBRAS, o silêncio, o DNA. Há linguagens dos mais diversos tipos e gêneros, pois onde há criação, produção e expressão de sentidos, sentimentos e significados lá existe linguagem.

Entender que linguagem abrange uma diversidade de fenômenos de produção de sentidos redireciona a compreensão sobre a Semiótica e denota a potencial abrangência analítica da área. Nesse aspecto, cumpre afirmar que somos constituídos por linguagens, uma vez que nossos sentidos (olfato, tato, visão, audição, paladar) captam e produzem linguagens e também somos rodeados por elas, pois todos os seres (animados e inanimados) que constituem o Universo se utilizam de linguagens peculiares.

A compreensão da semiótica peirciana precisa levar em conta ainda elementos de sua complexidade originária, tais como a mente do seu criador, a fenomenologia e a necessidade das categorias.  Charles Sanders Peirce era um filosofo-lógico-cientista e tinha um comprometido interesse nas relações existentes entre a Lógica e Filosofia. As bases da semiótica estão alicerçadas neste sistema Lógico-Filosofico.

A Semiótica, assim, insere-se dentro de uma ampla arquitetura filosófica de Peirce. Santaella (2007) afirma que a semiótica é uma filosofia científica da linguagem, pois nasce de uma complexa “trama” teórica, amadurecida ao longo de 30 anos de trabalho e com base na Fenomenologia. A fenomenologia observa os fenômenos e, através da análise, postula formas ou propriedades universais desses fenômenos (categorias). A fenomenologia tem “por tarefa dar á luz as categorias mais gerais, simples, elementares e universais de todo e qualquer fenômeno” (SANTAELLA, 2007, p.33).

Nesse sentido, Peirce dedicou-se a criar categorias para compreender todas as experiências, fenômenos e processos possíveis. A base para criação das categorias foi o exame atento e profundo da experiência, além da influência do pensamento de Kant e divergências com as categorias de Aristóteles e Hegel, consideradas essencialmente particulares e reducionistas.  Peirce, por sua vez, tinha a intenção de elaborar categorias tão universais que pudessem ser aplicadas a todos os fenômenos.

Categorias fenomenológicas universais. Depois de amplo esforço intelectual, Peirce elaborou uma doutrina das categorias a fim de torná-las aplicáveis em uma diversidade de fenômenos, campos do conhecimento (ciências biológicas, psicologia, filosofia, física e outros) e na natureza.

Peirce pretendia ainda abarcar todo tipo de experiência humana, por isso, analisou o modo como as coisas chegam à mente. Chegou à conclusão de que tudo que aparece na consciência o faz em uma gradação, ou seja, tem uma ordem para ocorrer: Primeiridade, Secundidade e Terceiridade. Essas são as três categorias lógicas e universais de toda a experiência e todo pensamento. A seguir é feita uma abordagem sobre cada uma das categorias, destacando o modo como um pensamento-signo é processado na mente.

  • A primeiridade (1º) corresponde ao acaso, originalidade irresponsável e livre, variação espontânea. Refere-se à pura qualidade de ser e de sentir um signo. Nesse nível as sensações são privilegiadas, oportunizando a percepção imediata, original, espontânea e livre de um signo.
  • A secundidade (2º) corresponde à ação e reação dos fatos concretos, existentes e reais. A qualidade [primeiridade] precisa estar corporificada em matéria, gerando uma realidade palpável.  Nesse aspecto leva-se em conta a materialidade, a ocupação do signo no espaço e seu tempo determinado.
  • A terceiridade (3º) diz respeito à mediação ou processo, crescimento contínuo e devir sempre possível pela aquisição de novos hábitos. São marcantes nesse nível: a generalidade, infinitude, continuidade, difusão, crescimento e inteligência. Trata-se do signo propriamente dito da representação, pois diante de um fenômeno: Qualidades, percepções e sensações elementares são percebidas (1º) em algo materializado, que ocupa um espaço no tempo (2º), gerando uma representação (3º).

REFERÊNCIAS

COELHO NETO, J. Teixeira. Semiótica, informação e comunicação. São Paulo: Perspectiva, 2010. (Coleção Debates)

SANTAELLA, Lúcia; NOTH, Winfried. Estratégias semióticas da publicidade. São Paulo: Cengage Learning, 2010.

SANTAELLA, Lúcia. Semiótica Aplicada. São Paulo: Cengage Learning, 2008.

SANTAELLA, Lúcia.  O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 2007.

Caso deseje citar esse conteúdo, utilize a seguinte referência:

GOMES JÚNIOR, Jonas da Silva. Elementos norteadores sobre a Semiótica Peirciana. 2018. Disponível em: <https://jonasjr.wordpress.com/2018/03/22/elementos-norteadores-sobre-a-semiotica-peirciana/>. Acesso em: dia. mês. ano.

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