Cicilia Peruzzo e as Relações Públicas no modo de produção capitalista (Autores Clássicos de RP)

Cicilia Maria Krohling Peruzzo possui graduação em Comunicação Social pela Faculdade de Comunicação Social Anhembi, mestrado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado pela Universidad Nacional Autónoma de México. Pesquisadora da área da Comunicação nas linhas popular, comunitária, alternativa e mídia local, além de Relações Públicas, na perspectiva crítica e dos movimentos sociais.

Uma das suas principais obras é “Relações Públicas no modo de produção capitalista” (1986), resultante da dissertação defendida pela autora na Universidade Metodista de São Paulo. No Capítulo “Relações Públicas na contramão” a pesquisadora  vislumbra a possibilidade das RPs se desdobrarem em uma nova vertente, a popular, alternativa ou comunitária (ligada aos movimentos sociais e as demais organizações sem fins lucrativos da sociedade civil).

Segue um resumo das principais ideias do livro:

  • Objetivo da obra: analisar criticamente as Relações Públicas, de modo a compreender o seu real sentido quando utilizadas por organizações na sociedade capitalista. A autora usa no livro o materialismo histórico-dialético.
  • Contexto da Publicação: Na década de 80, a maior parte da bibliografia era caracterizada por manuais, pois a tendência era a elaboração de textos com o enfoque na aplicação de técnicas de Relações Públicas.
  • A Crítica: As relações públicas pretendem se passar por neutras, pois enfatizam como sua razão de ser o atendimento das demandas dos públicos e do interesse público, como se não houvesse a supremacia dos interesses das organizações e dos governos nesses relacionamentos
  • RP Tradicionais X RP Populares: A autora diferencia as Relações Públicas tradicionais das Relações Públicas populares. As primeiras assumem para si características altruístas: apresentam-se como se não se posicionassem em primeiro plano a favor daqueles aos quais se ligam institucionalmente e como se não tivessem classes antagônicas na sociedade capitalista.
  • Compreensão Mútua nada!  A autora critica o fato das RPS tentarem estabelecer a compreensão mútua, a harmonização entre a burguesia e trabalhadores, classes antagônicas. O modo de produção capitalista é caracterizado pela autora. Na prática, a autora afirma que não tem como ocorrer a harmonização social, pois as classes não possuem os mesmos objetivos. Há uma divergência natural entre as classes.
  • Mais-Valia: As Relações Públicas desenvolvidas com os empregados (público interno) servem para potencializá-los a trabalhar mais e melhor, ou seja, para aumentar a produtividade por meio da mais-valia (valor excedente produzido e não repassado ao trabalhador). Buscar cooptar os trabalhadores a se submeterem as interesses do capital.
  • Clima, Cooperação, Mais Produção. Na medida em que as relações públicas atuam visando criar relações de confiança e um clima agradável no ambiente de trabalho, estão, indiretamente, potencializando a concretização da cooperação. O trabalhador satisfeito vai se dedicar com mais diligência e, portanto, render mais e melhor, além de transmitir estímulos aos outros que o cercam. Exemplos: integração dos funcionários, periódico da empresa, concursos, prêmios, portas abertas.
  • “O conflito está presente o tempo todo e as Relações Públicas tentam amenizá-lo por meio de suas técnicas. Não é possível dizer que a empresa faz isso ou aquilo porque está interessada em satisfazer as necessidades de seu público interno ou para resolver problemas sociais. Esse tipo de atitude não se coaduna com a lógica do capital. Se ela age de modo a corresponder a certas expectativas ou a atender as reivindicações dos públicos, é porque sabe muito bem o tipo de retorno que espera e que terá.
  • Educação e Relações Públicas Populares. A perspectiva das relações públicas populares não se limita a educação “bancária”, mas se inserem na concepção libertadora da educação.
  • Dimensões das RPs Populares: Três dimensões estão inseridas nas Relações Públicas populares no processo pedagógico: a conscientização, a articulação e a ação para a construção de um novo homem, de uma nova sociedade.

O livro é, sem dúvida, um clássico das Relações Públicas. A autora não se detém aos aspectos da aparência de Relações Públicas (a serviço de toda a sociedade), mas sim a sua essência (comprometidas com o capital a serviço de uma classe dominante). Mostra que as Relações Públicas “estão diretamente vinculadas à apropriação do excedente, bem como à reprodução das condições necessárias à acumulação capitalista” (PERUZZO, 1986, p. 18)

Além de indicar a leitura  para graduandos que estão cursando Relações Públicas, em especial a disciplina de Relações Públicas Comunitárias, recomendo aos comunicadores para ter compreensão mais crítica da Comunicação Empresarial e Comunicação Pública. É preciso fomentar uma visão mais libertária, crítica, humanística da Comunicação.

 

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