Televisão no Amazonas: surgimento e evolução

Primeira sede da TV Amazonas em 1972 (fonte: manausontemhojesempre.blogspot.com)

A televisão chega a Manaus, em 1967, por meio de um sistema de TV a cabo. Era a TV Manauara, do empresário sírio-brasileiro Khaled Hauache, cuja programação – distribuída em mais de 50 mil metros de cabo nas ruas do centro da cidade e no bairro da Vila Municipal – era ocupada basicamente por filmes em preto e branco, adquiridos da TV Record, de São Paulo.

Na verdade, a idéia da família Hauache de implantar uma TV em Manaus vem desde 1965, quando iniciou a construção que deveria tornar-se sede do empreendimento e o cabeamento. Contudo, o pitoresco hábito de soltar pipa em uma cidade provinciana, como a Manaus da época, foi fator decisivo para anunciar a “morte” da TV Manauara: os custos com a recuperação de cabos foram extremamente onerosos, além das constantes reclamações dos assinantes de sua qualidade. Após um ano e três meses, ela encerrava sua curta existência.

A vontade de possuir uma estação de TV de melhor qualidade fizeram a família Hauache solicitar do Governo Federal, ainda em 1967, a concessão de um canal de televisão na faixa UHF. Ao final de 1968 surge a TV Ajuricaba (canal 38 UHF), que, após três meses em caráter experimental, continua a apresentar a programação da TV Record de São Paulo, mas também produzindo programas ao vivo, como o “Telenoticioso BEA” e “Paralelo” (debates). Sofrendo o assédio expansionista da TV Globo, que procurava parcerias para difundir seu sinal e criar uma rede nacional, a TV Ajuricaba, em 1970, passa à condição de afiliada e integra-se, como canal 20 UHF, a retransmitir os programas da Globo, tornando-se um sucesso comercial, chegando a ter 38 repetidoras nos vários municípios amazonenses.

Em 1976, graças ao avanço tecnológico e o uso do satélite, a TV Ajuricaba passa a transmitir no canal 8 VHF e a usufruir dos programas da Rede Globo simultaneamente. Com problemas financeiros, a TV Ajuricaba é vendida ao Grupo Simões, concessionário local da Coca-Cola, no final dos anos 80, passando a chamar-se Rede Brasil Norte de TV. Mais tarde a RBN é arrendada e depois adquirida, em 1993, pelo pastor José Fernandes, da Igreja Assembléia de Deus, que altera seu nome para Rede Boas Novas. Em 1996, tendo adquirido um canal específico de satélite, cria o Jesus Sat, passando a emitir – como até hoje – apenas programas evangélicos para uma rede de emissoras religiosas.

Em 1971, com a investida do governo federal na radiodifusão educativa, começa a funcionar experimentalmente a Televisão Educativa do Amazonas, uma fundação de direito público e estatal. Transmitindo regularmente a partir de 1972 uma programação de cunho educativo e cultural, o canal 2 se estabelece como referência para a produção local de programas culturais de qualidade, além de constituir-se num centro formador de técnicos e operadores de TV. Com a criação do Centro Amazônico de Produção, algumas produções baseadas no folclore, educação, pintura, música, teatro e literatura amazonense são premiadas nacionalmente, fazendo com que a emissora vivesse seu auge nos anos 1976-83.

Paradoxalmente, a partir da instauração de governos eleitos, em 1982, a TVE-Am perde essas características democráticas, transformando-se em “porta-voz oficial” desses governantes e a viver o sucateamento tecnológico pela falta de investimentos. À beira de sua falência, um contrato com a TV Cultura de São Paulo, em 1992, transformou-se em Fundação Televisão e Rádio Cultura do Amazonas (FUNTEC), agora de direito privado, e revitalizou a emissora através da transmissão de quase 70% da programação da emissora paulista. Novos e modernos equipamentos, uma produtora interna de comerciais e uma linha de produção de programas aos moldes da TV Cultura de São Paulo fizeram retornar seu antigo prestígio, voltando a estimular até hoje a produção regionalizada.

Integrando as emissoras dos Diários Associados, é criada em 1972 a TV Baré (canal 4), administrada por Airton Pinheiro, que transmitia a programação da TV Tupi de São Paulo. Com a queda do império das empresas de Assis Chateaubriand, a TV Baré ficou praticamente desativada, sobrevivendo da exibição de alguns filmes e programas cedidos pela TVE-Am. Quando no início dos anos 80 surgiu o Sistema Brasileiro de Televisão, de Sílvio Santos, ele se instala no Amazonas através da TV A Crítica, do empresário e jornalista Umberto Calderaro Filho, substituindo a TV Baré. Saindo de uma rede mais flexível para outra mais fechada, a emissora apenas conseguia produzir alguns programas de auditório, outro de debates gerais e um pouco de telejornalismo, já que os demais horários (cerca de 80%) eram consumidos pelos programas da rede. Aliás, como até hoje. Com a transformação da empresa local em Rede Calderaro de Comunicação (abrange emissoras de rádio, jornal e os canais de TV repetidores da MTV e Rede TV!), o sinal do SBT é repassado a mais de 15 municípios do estado.

Também em 1972, o jornalista, radialista e publicitário Phelippe Daou lança-se numa empreitada ousada, contando com o sutil respaldo dos governos locais militares: importando equipamentos sofisticados, cria a TV Amazonas (canal 5), primeira emissora de televisão com sinal colorido do Norte/Nordeste, cinco meses depois da primeira transmissão colorida brasileira. A TV Amazonas reproduzia o sinal da TV Bandeirantes, mas possuía a liberdade de produzir programas locais, tendo criado um centro de produção de programas, embrião do futuro Amazon Sat, um canal de satélite adquirido no início dos anos 90 e que até hoje gera, pelo canal 44 UHF, uma programação própria regionalizada.

A declarada preferência dos governos militares para a Rede Globo de Televisão atuar na “integração” audiovisual do país e auxiliar na propagação da doutrina da Segurança Nacional, fez aquela rede rever sua renovação de contrato com a TV Ajuricaba, preferindo a emissora local de qualidade técnica compatível com a sua. Dessa forma, a partir de 1986, a TV Amazonas passa a gerar o sinal da Rede Globo e inicia um processo de também se transformar em rede regional, a Rede Amazônica de Televisão, integrando a TV Amazonas (sede), TV Acre, TV Amapá, TV Rondônia e TV Roraima, além de inúmeras repetidoras em toda a Amazônia. Pelas limitações impostas pela Rede Globo, apenas os programas informativos são produzidos localmente, no curto tempo que, as emissoras dispõem. Todas as demais iniciativas de gerar programas regionais estão reservadas ao Amazon Sat, canal que possui qualidade técnica sofisticada favorece a absorção de jornalistas e técnicos locais.

Em 1988 era criada em Manaus a Besançon, primeira grande estrutura produtora de programas de TV, muito mais para atender as demandas da propaganda comercial e política. Após as eleições para governo de 1990, quando saiu vencedor Gilberto Mestrinho, seu vice, o empresário Francisco Garcia, adquire a Besançon, incorpora novos equipamentos, compra os transmissores, instala a torre em área de sua propriedade no bairro do Aleixo e cria a TV Rio Negro (canal 13). A emissora passa a retransmitir a programação da Rede Bandeirantes, ausente quatro anos do público manauara. Com a flexibilidade de programação que a rede trabalha, a TV Rio Negro transformou-se numa das emissoras que mais apresentam programas locais (a outra é a FUNTEC), desenvolvendo uma política de vender espaços para produtoras da região. Surgiram assim programas infantis, de auditório, de televendas e de colunismo social, além dos telejornais de responsabilidade da emissora. Hoje, enfrenta alguns problemas financeiros, que se faz perceber pela perda de qualidade de sua programação.

Graças à sua influência junto ao Governo Federal, a empresária Sadie Hauache consegue obter sua segunda concessão para um canal de televisão em Manaus (o primeiro foi a pioneira TV Ajuricaba) no ano de 1990. Inicia então os preparativos para a criação da TV Manaus (canal 10), que lança seu sinal definitivo no final de 1993. A emissora caçula passa, desde então, a retransmitir a programação da Rede Record de Televisão. De forma até hoje precária, a TV Manaus abre pequenos espaços para as produções locais, notadamente na área do entretenimento popular.

Fonte: COSTA, Antônio José Vale da. História dos meios de Comunicação no Amazonas. In: GONTIJO, Silvana. O mundo em Comunicação. Rio de Janeiro: Editora Aeroplano, 2001.

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