Rádio no Amazonas: antecedentes históricos

Conjunto Regional Los Caribes, Rádio Baré. (Foto:Acervo Abrahim Baze)

Em 1927, em meio ao descaso do poder central e à crise da borracha, surge a primeira emissora de rádio no Amazonas, a Voz de Manaós. A companhia inglesa Amazon Telegraph foi encarregada de instalar a estação radiofônica de ondas curtas, que tinha por objetivo principal transmitir aos municípios do interior informações atualizadas das cotações e valorizações dos produtos naturais nas bolsas internacionais, a situação da moeda brasileira e o câmbio exterior, o horário de chegada e saída das embarcações e as realizações do governo estadual. Entretanto, talvez por seu amadorismo ou à sua irregularidade, a rádio não caiu no gosto dos moradores da capital, deixando de existir em 1930. Com a substituição de Ephigênio Salles no governo, ruíram também as possibilidades do Amazonas avançar na radiofonia, principalmente pela descontinuidade das administrações seguintes, notadamente daquelas iniciadas após o movimento político de 1930.

Graças às iniciativas de Manoel Bastos Lira na construção de receptores de galena na década passada, o técnico paulista em eletrônica e ex-funcionário do Departamento de Correios e Telégrafos Lizardo Rodrigues construiu artesanalmente um transmissor de 500 watts. Isto foi o suficiente para que criasse a Voz da Baricéa em 1938, uma emissora que se não teve problemas técnicos, como sua precursora, enfrentou os problemas de uma programação que agradasse aos ouvintes. A PQM-3 adotara os mesmos passos das emissoras cariocas, impondo uma transmissão austera e de pouco gosto popular. Eram leituras de notícias publicadas diariamente nos jornais – com comentários do próprio Lizardo -, e muita música clássica. A pressão popular foi muito grande e a Voz teve que encerrar um ciclo e começar outro, ainda no fim dos anos 30.

A dedicação de Wuppschlander, um funcionário da Fazenda Pública e radiólogo, fez renascer a rádio, agora com o prefixo PRF-6, com uma voz feminina entre os locutores e uma proposta popular com samba, chorinho e cantores do rádio. A idéia era acompanhar os ajustes “modernistas” das rádios comerciais cariocas, fato este reconhecido em elogios pela imprensa local. No entanto, parte desse sucesso deveu-se, na verdade, às aproximações de interesses do interventor do estado, Álvaro Maia, em utilizar as emissões radiofônicas para fins políticos, na esteira de sua aplicação por Getúlio Vargas durante o Estado Novo. Graças à sua obstinação pela utilização da rádio e o apoio da maioria dos políticos e comerciantes locais à política estadonovista, Álvaro Maia conseguiu, em 1942, adquirir e tornar estatal a PRF-6, transformando-a em Rádio Baricéa ou Rádio DEIP (Rádio do Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda, no rastro do autoritarismo do DIP nacional), sob a direção de Gebes Medeiros. A Rádio DEIP (ficou mais famosa com este nome) fez a Interventoria do Amazonas cair na preferência do Governo Federal. Um acontecimento internacional com conseqüência local definiria o papel nevrálgico da Rádio DEIP: o ataque nipônico à Pearl Harbour e a conseqüente declaração de guerra pelos países aliados comprometem o monopólio da produção da borracha pela Malásia e provoca a necessidade dos EUA e Europa voltarem a consumir borracha do Amazonas.

Para suprir esse surto de “reabilitação econômica do Amazonas”, Álvaro Maia, entre outras medidas, estimula a migração de nordestinos, ameaçados por uma grande seca, utilizando-se da Rádio DEIP. Havia, pois, uma propaganda sistemática através de alto-falantes instalados nos navios do Serviço de Navegação da Amazônia e Administração do Porto do Pará – SNAPP. A partir do momento em que o processo migratório se mostrou auto-suficiente, o esquema foi desativado. Uma ano depois, em 1943, a rádio foi “devolvida” à iniciativa privada, passando a ter outro nome, função e propriedade.

Em 1943 os braços do poderio de Assis Chateaubriand chegaram ao Amazonas. Depois de passar por Belém, os Diários Associados, em sua trajetória de tornarem-se uma cadeia nacional de informação, adquiriam em Manaus o Jornal do Commercio e a Rádio DEIP, que agora passava a adotar o nome Rádio Baré, dando continuidade à tradição de Chateaubriand de dar nomes indígenas às suas emissoras.

Os breves lampejos da democracia com o fim do Estado Novo, em 1945, e o surgimento da Associação Brasileira de Rádio fizeram as emissoras de rádio do país iniciarem uma forma sutil de contestação ao regime em decadência, com programas humorísticos satíricos. A Rádio Baré, seguindo as determinações de Chateaubriand, que já se opunham aos seguidores de Vargas, adotou também essa postura e entrou em rota de colisão com a Interventoria. Entre 1945 e 1948, a radiofonia local vive momentos de acomodação e mesmice, até o surgimento de um concorrente, que provocou uma disputa por todos os anos 50. Nos anos 60 e 70, mesmo com o surgimento de outras emissoras, a Rádio Baré, com a absorção de nova equipe de programadores, entre eles Jaime Rebelo e Josaphat Pires, inovou com programas de auditório, revistas radiofônicas e radionovelas convencionais. A derrocada nacional dos Diários Associados e a forte concorrência da TV fizeram com que ela fechasse suas portas em fins dos anos 70.

Com o propósito de torna-se uma emissora concorrente política, artística e comercialmente, surge em 1948 a Rádio Difusora do Amazonas, de propriedade de Josué Cláudio de Souza, contando com o apoio financeiro do empresário local J.G. Araújo. Sua programação assemelhava-se à da concorrente Rádio Baré e essa disputa foi geradora de algumas inovações locais, tais como a vinda de artistas nacionais do rádio em duas casas de espetáculos bancadas pelas emissoras: a “Maloca dos Bares” (Rádio Baré) e “Festa da Mocidade (Rádio Difusora), sobressaindo-se os apresentadores Belmiro Vianez e Flaviano Limongi. Mesmo com problemas estruturais provocados pela recessão econômica da região, a concorrência das duas emissoras percorreu todo os anos 50, só sendo abalada pelo surgimento de nova rádio. A Rádio Difusora, nos anos 60, oscilava politicamente entre contestar o regime militar e apoiá-lo através de sua aproximação com o governo local. Josué Cláudio envereda-se pela política e inicia uma trajetória, até hoje mantida por seus filhos e netos, de dar vazão a um viés governista, sendo o protótipo da emissora radiofônica de respaldo às políticas governamentais. Fruto dessas relações é a tranqüila obtenção de uma concessão para operar também em FM no início dos anos 80.

Coincidindo com os acontecimentos nacionais (com reflexos locais), em 1954 surge a Rádio Rio-Mar, de propriedade dos jornalistas Agnaldo e Aluísio Archer Pinto, com o apoio do grupo empresarial de Charles Hamu, tendo na direção Alfredo Fernandes. A nova emissora apostava numa programação musical de qualidade e no jornalismo radiofônico, alterando a “concorrência branca” das outras rádios. No entanto, o que conseguiu realizar foi um jornalismo baseado no tesoura press a partir dos jornais dos mesmos proprietários. Sua importância, contudo, está no fato de definitivamente introduzir, de modo conseqüente, o jornalismo nas programações de rádio de Manaus, contribuindo sensivelmente para a mudança da programação de suas concorrentes. Nos anos 60, ainda sem contar com a imagem televisiva, privilegiava–se o cinema em Manaus. Coube à Rádio Rio-Mar mais uma inovação: a produção de programas radiofônicos sobre cinema, quando Ivens Lima apresentava em primeira mão o som dos traillers, as trilhas sonoras, os diálogos mais importantes dos filmes em lançamento, entrevistas com os atores e muita informação de bastidores de produções. Este tipo de programa foi um sucesso, provocando outros do gênero nas concorrentes. Com a chegada da televisão (no início dos anos 70) e a “modernidade” da Zona Franca de Manaus, às rádios locais enveredaram pelo jornalismo esportivo, aparente saída para a crise de audiência. Essa crise irá, em meados dos anos 70, promover a venda da Rádio Rio-Mar para a Arquidiocese de Manaus, sofrendo mudanças em sua programação paulatinamente. Mesmo mantendo sua importância informativa nos anos 80, a rádio não resistiu à pressão devastadora da TV e das rádios FM, e hoje mantém uma programação discreta, entre o religioso e a informação cultural.

Manaus abrigou a primeira emissora de rádio em freqüência modulada stereo do país: em 1966, era fundada a Rádio Tropical, de propriedade do empresário Antonio Malheiros. Utilizando-se das facilidades de importação surgidas na gênese da Zona Franca, adquiriu diretamente dos EUA o equipamento necessário tanto para transmitir como para receber os sinais (sua loja foi a primeira a oferecer rádios importados para captar o sinal FM). Sabe-se, contudo, que essas facilidades foram proporcionadas pelo real interesse do governo militar restringir os sinais das rádios estrangeiras comunistas na Amazônia. A programação da Rádio Tropical era basicamente musical, combinando com a qualidade do som stereo em FM. Mesmo no momento da crise radiofônica dos anos 70 em Manaus, quando as emissoras “especializaram-se” no jornalismo esportivo, a Rádio Tropical – que poderia oferecer melhor resultado graças aos seus equipamentos modernos – nunca fez opção pelo jornalismo. De uma programação musical primorosa em sua primeira década, passou a experimentar o “modelo jovem” das rádios FM do país nos anos 80, com muita música pop e hits da indústria fonográfica norte-americana. Hoje, tem parceria de programação com a Rádio Cidade e segue a tendência, também de outras emissoras FM locais recentes (Rádio Tarumã/ Jovem Pan e Rádio Novidade), de atingir o público jovem integrando redes nacionais ou não.

Outras emissoras em FM, mais recentes e ainda funcionando (Rádio Você, Rádio A Crítica, Rádio Cabocla e Rádio Difusora FM), enveredaram por programações bem populares, de apelo musical romântico e brega, com programas assemelhados às tradicionais emissoras em AM, que hoje destinam suas emissões radiofônicas visando o público do interior e seus gostos culturais. Outra emissora optou por uma programação religiosa (Rádio Ajuricaba), enquanto a Rádio Cultura do Amazonas tem uma natureza educativa e cultural voltada mais para o interior do estado.

Já a Rádio Amazonas FM, do grupo Phelippe Daou, tem a pretensão de ser “a única rádio de Manaus voltada para o estilo adulto-contemporâneo”. Na verdade, ela esforça-se para hoje assim atuar, mantendo programas musicais de boa qualidade, com músicas diversificadas (jazz. MPB, instrumentais, clássica, trilhas sonoras, pop etc.), informativos de ampla cobertura e transmissão direta, programas de entrevistas para problemas sociais locais e espaço para a cultura da região. As pretensões “inovadoras” talvez esbarrem nas possíveis oscilações políticas dos governos local e federal, quase sempre determinantes nos destinos da empresa, cuja característica histórica é sempre manter uma boa relação com eles.

Fonte: COSTA, Antônio José Vale da. História dos meios de Comunicação no Amazonas. In: GONTIJO, Silvana. O mundo em Comunicação. Rio de Janeiro: Editora Aeroplano, 2001.

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