História da imprensa no Amazonas

Edição Estrella do Amazonas (1857) Fonte: Memória da Biblioteca Nacional (memoria.bn.br)

Como a Província do Amazonas só foi criada em 1850, desmembrando-se do Pará, e como a maioria da população não falava o português, mas o nheengatu, de forte tradição oral, o desenvolvimento da imprensa no Amazonas foi muito retardatário em relação aos padrões do Rio e São Paulo.

O primeiro jornal a surgir no Amazonas foi o semanário Cinco de Setembro, que circulou em 03 de maio de 1851. Era seu diretor-proprietário o tenente paraense Manoel da Silva Ramos, que foi convidado pelo primeiro presidente da província do Amazonas, Tenreiro Aranha, para montar a primeira oficina tipográfica de Manaus.

Existiu até dezembro do mesmo ano, quando mudou o nome para Estrella do Amazonas, transformando-se no primeiro jornal de importância. Durante 14 anos de existência, este semanário teve como proprietário o mesmo Manoel da Silva Ramos e seus descendentes até que foi vendido para Antônio da Cunha Mendes, que irá alterar o nome para Amazonas.

Essa imprensa do primeiro momento é uma imprensa áulica, que se limita sobretudo à publicação de atos governamentais da província e do Império e a anúncios classificados de proprietários em busca de escravos fugitivos e/ou objetos roubados. Este tipo de imprensa, que também convive com o jornalismo panfletário e o jornalismo escandaloso, vai atravessar todo o período áureo da borracha, consolidando um jornalismo político ou imprensa de opinião, geralmente vinculada a um partido político de caráter ideológico.

Nessa linha enquadram-se, entre outros, o Abolicionista do Amazonas (1884), produzido por um grupo de mulheres; o Ajuricaba (1902), de caráter nacionalista dedicado à propaganda nativista; o Amazonas (1866), órgão inicialmente do Partido Conservador e depois do Partido Republicano, o primeiro jornal diário, entre 1890-1921, que se caracterizou por uma postura crítica à política local; a Federação (1895), que durante oito anos atuou como órgão do Partido Republicano Federal; o Operário (1892), do Partido Operário do Amazonas; O Socialista (1936), do Partido Socialista do Amazonas.

Quanto à imprensa panfletária, ela é constituída, de um lado, pelos jornais do anarco-sindicalismo, e, de outro, por pasquins que se dedicam a denunciar publicamente a vida íntima dos habitantes da cidade. Entre eles, destacam-se O Constructor Civil (1902), A Tribuna do Caixeiro (1908), Confederação do Trabalho (1909), Lucta Social (1914), Folha Marítima (1916) e A Vida Operária (1920).

Desses, o Lucta Social, dirigido por Tercio de Miranda, com oito páginas, é ligado à Sociedade das Artes Graphicas de Manaus, de orientação anarco-sindicalista, e transcrevia artigos de Kropotkin, fazia críticas à beneficência e ao mutualismo, além de divulgar notícias sobre a organização operária local, nacional e internacional. É o mais importante jornal da imprensa operária.

O jornalismo escandaloso desses primeiros passos da imprensa no Amazonas – destacam-se O Beijo (1896); O Namoro (1902);         O Nu (1903); O Bohemio (1906), “órgão denunciante e esculhambatório”; O Bemtevi (1910), ”orgam da safadeza de propriedade de um grupo de vagabundos aposentados”; O Pau (1912); O Pun (1916); e K.C.T. (1917), ”orgam desorganizado de propriedade do Dr. K.C.Tão” – usa uma linguagem desabusada e ousada, publicando aspectos da vida privada dos membros de famílias que ocupavam posições dominantes na sociedade local, além de críticas aos políticos e aos dirigentes de repartições públicas. Os seus redatores adotam uma linguagem humorística e irônica, acobertando-se sob pseudônimos, indicando claramente a já existência do controle social sobre a imprensa.

Duas outras vertentes do jornalismo amazonense são encontradas no jornalismo do interior e no jornalismo das colônias estrangeiras. No primeiro, são inúmeros os jornais editados nas sedes dos municípios, principalmente naqueles onde a extração da borracha se concentrava, ou seja, os dos rios Acre, Juruá, Madeira e Purus. São informativos que retratam a vida das comunidades, com notícias – como até hoje – sobre a falta de atenção dos governantes, sobre agricultura, extrativismo, saúde, educação… Já os jornais das colônias eram aqueles editados pelos imigrantes italianos, sírio – libaneses, espanhóis, ingleses e portugueses de diferentes regiões, como os da Póvoa de Varzim e Loriga. Invariavelmente escritos na língua de origem, eles se propunham a defender os interesses de suas respectivas colônias no Amazonas.

Dentre os periódicos em que se pode rotular de jornalismo moderno, cujas características são a edição diária e a longevidade de periodização, reunidas sob a égide de uma indústria, destacam-se o Jornal do Commercio (1904), Gazeta da Tarde (1913), O Dia (1925), O Jornal (1930), Diário da Tarde (1937), A gazeta (1949), A Crítica (1949), e A Notícia (1969).

Talvez o jornal local de maior importância histórica tenha sido o Jornal do Commercio, um diário matutino fundado em 1904, até hoje em funcionamento. Primou, desde o início, pela independência em relação aos governos e por proporcionar o máximo de informação à população, mantendo, para isto, correspondentes em várias cidades do interior da Amazônia e até em Portugal. Em 1906, foram instaladas máquinas de linotipo, sendo uma das primeiras empresas jornalísticas no país a adotar essa tecnologia, e o jornal, o terceiro em toda a América do Sul. Um de seus principais redatores foi o historiador Arthur Cezar Ferreira Reis, mais tarde governador do Estado. Em 1943, o jornal passou a fazer parte da rede nacional dos Diários Associados, integrando o império de Assis Chateaubriand. Quando os Diários Associados, no Brasil, começaram a perder fôlego, o Jornal do Commercio também sofreu seus reflexos. Em meados dos anos 70 e início dos 80, passou por grandes dificuldades financeiras e deixou de circular por alguns anos até que foi adquirido, em 1985, pelo empresário Guilherme Aluízio. Revitalizado, o jornal voltou a ser um dos expoentes do jornalismo amazonense, para, em 1996, amargar nova crise. Hoje, gerida pela Cooperativa dos Profissionais de Imprensa do Estado do Amazonas, persegue uma linha de certa independência à forte estrutura de governo estadual e municipal, tentando soerguer-se.

Com o subtítulo “Jornal Independente”, a Gazeta da Tarde, fundada em 1913 por Aggeo da Costa Ramos, passou por vários empastelamentos e vários atentados à vida de seu diretor, exatamente por definir-se como “jornal de linha ideológica-política,sem compromisso,(…) somos combatentes a peito descoberto”. Em 1915 circulou com editorial denominado “Gazetinha”, onde constava a opinião sobre os assuntos da guerra. Em 1923, durante o governo Rego Monteiro, o proprietário foi forçado a vender seu jornal seu jornal aos elementos do situacionismo.

O Dia, criado em 1925, teve apenas seis anos de existência. Este vespertino assumiu uma postura nacionalista, chegando a criticar as expedições de Hamilton Rice e Shurz e a presença da Ford e outros estrangeiros como saqueadores da riqueza amazônica. No período da Revolução de 30, teve a reação forte do governo, que determinou seu empastelamento e morte.

Também em 1930, mas com posição política favorável ao movimento, surge O Jornal, o matutino de maior importância para a comprovação de um jornalismo moderno em Manaus e o grande formador de jornalistas profissionais. Imprimindo uma linha editorial mais eclética, que cobria desde as simples notícias da vida da cidade até às análises sociais, culturais e políticas, em artigos críticos, O Jornal transformou-se numa referência jornalística que concorria com o tradicionalismo do Jornal do Commercio. Aliada à crise econômica dos anos 70 que atingiu a este, O Jornal vive uma crise gerencial aguda, não acompanhando as mudanças políticas nacionais e locais, principalmente a da instalação da Zona Franca de Manaus e a chegada da televisão, fazendo com que seu limite de existência se ocorra de forma decadente e lamentável em 1977.

Braço vespertino da empresa Archer Pinto, o Diário da Tarde, criado em 1937, propunha-se a ser o único jornal diário a oferecer as informações “mais quentes” do dia à população, ainda no mesmo dia, pela tarde. Este propósito foi amplamente respaldado pelo sucesso que obteve junto aos leitores, apesar da concorrência que logo depois surgiu, exigindo um esforço empresarial significativo em manter dois jornais diários.

Em 1949, Arthur Virgílio Filho funda outro vespertino diário, A Gazeta, com a intenção de oferecer noticias e artigos mais comprometidos com as idéias políticas liberais e democráticas, além dos informes normais do cotidiano da cidade. O jornal vai enfrentar sua crise justamente ao final de 1964, quando os ventos do golpe militar no país se fazem mais presentes no Amazonas.

Também em 1949, surge A Crítica, fundado pelo jornalista Umberto Calderaro Filho, o jornal diário de maior circulação hoje em Manaus. Mais incisivo na crítica política local que os demais, em seus primeiros números já faz oposição ao governador Leopoldo Neves, criticando a má administração dos serviços públicos. Porém, sua defesa por uma modernidade para o estado resvala numa certa dubiedade de posições políticas, ora assumindo uma postura nacionalista ou regionalista, ora defendendo modelos de desenvolvimento ancorado nos países líderes do capitalismo. Esta “característica” fará com que em alguns momentos combata o ex-ditador Getúlio Vargas e em outros defenda sua volta ao governo, para em seguida apoiar as idéias desenvolvimentistas de JK e a trajetória de Jango, muito mais em função de um apoio ao PTB local, de Gilberto Mestrinho. Por essa razão, faz uma oposição à ditadura militar, tendo sua redação sofrido um atentado e a ação de empastelamento. Refeito, A Crítica ampara-se no surgimento, em 1967, da Zona Franca de Manaus, passando a ser seu principal defensor como modelo de desenvolvimento para a região. Foi o primeiro jornal de Manaus a utilizar o sistema off set e a impressão a cores. Contudo, desde a metade dos anos 80, evidenciou sua postura de defesa velada da estrutura de poder local apoiada muito mais no personalismo de políticos e empresários que em ideologias.

Em 1969, no bojo da Zona Franca de Manaus, surge A Notícia, um jornal criado e dirigido pelo jornalista Andrade Neto, que se transforma no principal veículo a empregar os novos jornalistas universitários e a oferecer melhores condições aos jornalistas tradicionais, minando a estrutura combalida de O Jornal. Sua linha política era a de oposição aos governos militares e seus representantes locais, ainda que isto viesse a ser um trampolim político para seu diretor. Nos anos 70 e início dos 80 estabelece uma acirrada competição de mercado e poder editorial com A Crítica, chegando a criar um debate diário histórico pelo baixo nível em que ele se deu. Por tudo isto e por suas posições contrárias aos governos militares, sofreu represálias e pressões que redundaram em sua venda para um grupo empresarial ascendente, em 1983. Seguindo uma linha industrial de jornal diário convencional, A Notícia logo capitularia para o apoio irrestrito à estrutura de poder local após o retorno de Gilberto Mestrinho e a ascensão política de Amazonino Mendes, aliado às pretensões políticas de seu diretor Francisco Garcia. Em 1997, depois de vários hiatos, o jornal desaparece.

Fonte: COSTA, Antônio José Vale da. História dos meios de Comunicação no Amazonas. In: GONTIJO, Silvana. O mundo em Comunicação. Rio de Janeiro: Editora Aeroplano, 2001.

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